Cristiano Ronaldo é o jogador com mais internacionalizações e o melhor marcador da história da Seleção. Lembro-me dos golos, dos títulos, das noites inesquecíveis, da exigência permanente, da ambição sem limites e da forma como projetou o nome de Portugal para os quatro cantos do mundo. Portugal deve-lhe muito.
A sua ligação à equipa das quinas confunde-se, em larga medida, com a própria história recente do futebol português. Por isso, a questão torna-se inevitável: onde termina o estatuto de Cristiano Ronaldo e começa a autoridade do selecionador?
O plano de Jorge Jesus para estes quatro jogos da Liga das Nações passava por utilizar Ronaldo no encontro frente ao País de Gales, em Alvalade, e no último jogo, no Estádio do Dragão. Ficaria de fora das partidas diante da Noruega e da Dinamarca.
No jogo com a Noruega, Ronaldo permaneceu no banco. Segundo foi noticiado, ao intervalo Jorge Jesus terá informado o jogador de que poderia entrar nos últimos 15 a 20 minutos. Ronaldo aqueceu durante cerca de meia hora, mas acabou por não ser utilizado. O selecionador justificou a decisão com razões táticas e com o rendimento de Gonçalo Ramos.
O capitão não terá reagido bem. Não foi ao relvado agradecer o apoio dos adeptos após o encontro e, no dia seguinte, não participou no treino. Nesse momento, a questão deixou de ser apenas futebolística.
Perante a dimensão do problema, Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, deslocou-se de imediato à Dinamarca. Nessa noite, Jesus, Ronaldo e Proença terão reunido para tentar ultrapassar o conflito. De acordo com as informações divulgadas, o selecionador alegadamente reconheceu que errou ao manter Ronaldo em aquecimento durante cerca de 30 minutos sem o lançar em jogo. Parecia tudo estar sanado. Contudo, a trégua durou pouco.
Na conferência de imprensa seguinte, Jorge Jesus anunciou que responderia apenas a duas perguntas, mas acabou por prolongar a intervenção e falar sobre o tema. Numa comunicação algo confusa e atabalhoada, procurou reafirmar a sua autoridade e deixar uma mensagem clara: as decisões sobre a equipa pertencem exclusivamente ao treinador. Foi nesse contexto que confirmou também a titularidade de Gonçalo Ramos no jogo seguinte.
Segundo Edu Aguirre, jornalista do programa espanhol El Chiringuito, terá sido precisamente essa conferência de imprensa a precipitar a saída de Ronaldo. O selecionador ter-lhe-á pedido desculpa em privado e prometido reconhecer publicamente o erro cometido no pré-match com a Dinamarca. O discurso público não terá correspondido ao conteúdo da conversa privada, levando o jogador a sentir-se traído.
Não sabemos ao certo o que foi efetivamente dito nessa reunião privada, nem quais foram os acontecimentos que conduziram à rutura, já que não ouvimos todos os agentes envolvidos. O capitão da seleção apenas publicou uma mensagem enigmática nas redes sociais que deixou algumas dúvidas no ar: «A seu tempo, direi a verdade a todos os portugueses.»
Agora, o que sabemos é que, pela primeira vez na sua carreira internacional, Cristiano Ronaldo abandonou um estágio da Seleção Nacional. E esse facto, por si só, encerra uma dimensão simbólica e desportiva impossível de ignorar.
Contudo, ninguém sai bem desta novela. Este processo foi mal gerido por todos os intervenientes:
Em primeiro lugar, por Cristiano Ronaldo. O capitão não deveria ter abandonado a Seleção, numa reação intempestiva que muitos interpretaram como uma a birra. O mesmo ego competitivo que o levou ao topo do futebol mundial acabou, neste episódio, por jogar contra ele.
Poderia simplesmente ter aguardado pelo final do estágio e, então, comunicar que considerava encerrado o seu percurso na Seleção. Isso não diminuiria em nada a importância da sua carreira. Pelo contrário. Acrescentaria grandeza ao momento de despedida.
Mas Jorge Jesus também falhou. Não por decidir não utilizar Ronaldo. Um selecionador tem de possuir total liberdade para escolher quem joga, quando joga e durante quanto tempo. Essa autoridade faz parte do cargo e não pode ser condicionada pelo nome inscrito na camisola.
O erro terá ocorrido na gestão da situação. Se existia um plano previamente definido e se foi transmitida ao jogador a possibilidade de entrar em campo, mantê-lo em aquecimento durante meia hora sem o utilizar constituiu, no mínimo, uma decisão discutível. Sobretudo tratando-se de alguém com o percurso, a dimensão mediática e a relevância simbólica de Cristiano Ronaldo.
A realidade é simples: existem jogadores com um estatuto diferente e que, inevitavelmente, também exigem uma gestão diferente. O próprio Jorge Jesus reconheceu que Ronaldo possui um estatuto especial, embora sustente que isso não deve alterar as regras.
É uma posição legítima. Mas existe uma diferença entre tratar todos de forma justa e tratar todos exatamente da mesma forma.
Um capitão de 41 anos, com mais de duas décadas de carreira internacional, cinco Bolas de Ouro e um peso simbólico incomparável no futebol português, exige uma capacidade de gestão que vai além da dimensão tática. Isso não significa favoritismo. Significa liderança.
Porque a maioria dos jogadores consegue aceitar não jogar. O que dificilmente aceitam é sentirem-se desrespeitados ou diminuídos.
E é aqui que surge talvez a pergunta mais incómoda de todo este processo: quando um líder sente necessidade de afirmar publicamente que "ninguém muda as minhas ideias", estará apenas a proteger a sua autoridade ou também a proteger o próprio ego?
Também a Federação Portuguesa de Futebol não está isenta de responsabilidades. Cristiano Ronaldo é uma marca global. Gera atenção mediática, receitas comerciais, contratos de patrocínio, venda de camisolas e projeção internacional. A Federação beneficia dessa dimensão e Ronaldo beneficia igualmente da exposição proporcionada pela Seleção. Existe uma relação de interdependência que não pode ser ignorada.
Cristiano nunca demonstrou ter vontade de terminar o seu percurso na Seleção. Pelo contrário. Ronaldo sentia que ainda podia ser útil e, porventura, conseguir alcançar os 1000 golos na carreira. E a verdade é que ainda poderia continuar a ser útil à equipa nacional. Não necessariamente como titular indiscutível nem como protagonista absoluto, mas como jogador, capitão, líder e símbolo. Continuaria a ser um dos maiores embaixadores de Portugal no mundo que leva milhares de adeptos de todo o mundo ao estádio apenas para o ver.
Mas a decisão de manter Ronaldo na equipa nacional após a saída de Roberto Martinez teve razões desportivas, mas sobretudo teve uma dimensão simbólica e comercial evidente. A Federação fez tudo o que estava ao seu alcance para preservar a sua maior figura – a sua galinha de ovos de ouro -, não obstante a sua idade.
Isso exigia uma gestão especialmente cuidada, o tal estatuto diferenciado de que Jorge Jesus falou. Não para lhe garantir a titularidade. Não para condicionar uma única decisão técnica do Selecionador Nacional. Mas para gerir aquilo que inevitavelmente se aproxima: o final de uma relação extraordinária entre um jogador e a Seleção do seu país.
Para que isso fosse possível, seriam necessárias duas condições: Ronaldo aceitar que a sua carreira internacional entrou numa nova fase e a Seleção e o seu Selecionador terem o bom senso para reconhecer o seu estatuto sem ficar refém dele.
Isso não pressupõe que deva jogar sempre. Não significa que esteja acima do treinador ou da equipa. Significa apenas que a história tem um peso.
Depois de tudo o que Cristiano Ronaldo deu ao futebol português, talvez merecesse que este capítulo fosse escrito com mais prudência, mais sensibilidade e, sobretudo, mais gratidão. Dificilmente as próximas gerações verão um português elevar o nome de Portugal tão alto e durante tanto tempo como Cristiano Ronaldo.
Porque há jogadores que passam pela Seleção. E há jogadores que acabam por confundir-se com a própria história da Seleção. Cristiano Ronaldo pertence, indiscutivelmente, a esta última categoria.