O Sporting voltou a desperdiçar uma vantagem, desta vez em Alvalade, frente ao Arouca. Já tinha acontecido em Famalicão e no Estrela da Amadora. Em sete jornadas, são seis pontos perdidos. Demasiados para uma equipa com ambições ao título.
Os erros individuais têm sido fatais: Quaresma no Estrela, Rui Silva no mesmo jogo, o autogolo de Gonçalo Inácio em Famalicão, a expulsão de Debast e o penálti cometido por Quaresma frente ao Arouca. Mas não são apenas os erros individuais que explicam o momento da equipa.
Também houve decisões de arbitragem discutíveis, nomeadamente a entrada sobre Altimira, em Arouca, que deixou o médio leonino no chão e nem sequer mereceu cartão amarelo. A arbitragem não justifica tudo, mas também não pode ser ignorada quando influencia os jogos.
Rui Borges tem responsabilidades? Evidentemente. Mas será justo colocar tudo sobre os ombros do treinador?
O Sporting decidiu fechar um ciclo e fez uma revolução no plantel. Saíram Hjulmand, Trincão, Pote, Bragança e Morita. Com eles desapareceram referências, rotinas e, sobretudo, liderança. Chegaram novos jogadores, mas não se constrói uma equipa renovada de um dia para o outro.
E a liderança faz falta. Quando a equipa entra em dificuldade, falta uma voz de comando capaz de a puxar para a frente. Frente ao Arouca, foi Suárez quem assumiu esse papel.
Também há contratações que ainda não justificaram o investimento. Zalazar, contratado por cerca de 30 milhões de euros para ocupar um papel importante no ataque, continua sem demonstrar a influência que se esperava. E no centro da defesa a situação é ainda mais preocupante.
Saiu Diomande, uma das referências do setor e entrou Ibrahima Ba, um jovem de 21 anos que chegou condicionado fisicamente e que voltou recentemente a parar. Enquanto isso, Inácio, Debast e Quaresma têm revelado uma preocupante falta de consistência.
Aqui está, talvez, uma das grandes questões desta época: o Sporting mudou muito, mas não reforçou suficientemente em setores onde mais precisava, designadamente no eixo defensivo.
O Sporting quis fechar um ciclo. A questão é saber se mediu verdadeiramente o risco dessa mudança.
Porque uma equipa não perde apenas jogadores quando muda profundamente o seu plantel. Perde rotinas, referências, liderança e mecanismos coletivos construídos ao longo de meses e anos. E esses elementos não se compram no mercado nem se constroem de um dia para o outro.
Agora, para os adeptos, Rui Borges é quem está a pagar a fatura dessa transformação. Porém, a SAD decidiu manter Rui Borges e dar-lhe um voto de confiança. É uma aposta legítima, mas a margem de erro é cada vez menor e a relação com a massa adepta está fragilizada. Entre os adeptos, Sérgio Conceição é apontado como um possível sucessor de Rui Borges, embora essa hipótese pareça pouco provável, tendo em conta as conhecidas relações entre o treinador e Frederico Varandas.
O Sporting decidiu mudar de ciclo, talvez seja demasiado fácil atribuir ao treinador toda a responsabilidade pelas dificuldades que essa mudança está a provocar.
O problema pode ser mais profundo. E, se assim for, mudar o treinador poderá não resolver aquilo que começou muito antes de a bola começar a rolar.