NARRATIVA DIÁRIA

Falhas na Digitalização dos Exames

Este ano, pela primeira vez, a correção dos exames nacionais do 11.º e 12.º anos foi realizada integralmente em formato digital, envolvendo mais de 300 mil provas processadas eletronicamente. Apesar da dimensão do desafio, o Governo avançou sem garantir a robustez do sistema — mesmo depois de este ter falhado em 2025, aquando da correção do exame de Filosofia. Os sinais de alerta estavam identificados, mas foram ignorados, comprometendo um processo decisivo para milhares de alunos.

Desde o início as falhas informáticas sucederam-se. Alguns professores relataram atrasos na disponibilização das provas, erros na digitalização das folhas de resposta e problemas técnicos na plataforma de distribuição e classificação. Estas dificuldades obrigaram ao adiamento da divulgação dos resultados, inicialmente prevista para o início de julho, para o dia 17. Perante os problemas detetados logo nos primeiros dias, o Governo anunciou também o adiamento da segunda fase dos exames. Um processo que durante anos funcionou com eficiência, transforma-se agora num verdadeiro pesadelo burocrático.

As consequências não tardaram. Muitos professores perceberam que poderão ter de alterar férias já marcadas. As famílias, por sua vez, receiam que os seus planos de verão também sejam afetados, caso o calendário volte a sofrer alterações. Apesar de tudo isto, o ministro Fernando Alexandre desvalorizou os receios dos pais e professores e insiste que não existe o caos de que se fala. Afirmou estar “a trabalhar, a resolver tudo” e a “defender a escola pública”, enquanto sugeria ser “imprudente” planear férias antes de serem conhecidos os resultados. Declarações que geraram forte contestação entre professores, encarregados de educação e sindicatos, sobretudo porque muitas famílias organizaram as férias de verão com base num calendário oficial anunciado em dezembro.

Mas o problema mais grave ultrapassa os atrasos e os transtornos. O que verdadeiramente preocupa é a incerteza e a perda de confiança que se instala doravante no sistema educativo e, em particular, no processo de avaliação. Muitos alunos poderão passar a duvidar da nota que lhes foi atribuída. Ficarão sem saber se a classificação traduz realmente os seus conhecimentos ou se foi distorcida pelas falhas de um sistema que, até agora, não mostrou estar à altura da responsabilidade para a qual foi criado. Haverá certamente muitos alunos a pedir a reapreciação das provas de exame.

A digitalização pode e deve trazer vantagens. Mas a transição digital não pode significar menos transparência, menos competência e menos confiança. A tecnologia deve reforçar a credibilidade do sistema, nunca a colocar em causa. Infelizmente, foi precisamente essa confiança que saiu beliscada num dos momentos mais decisivos da vida académica destes alunos — quando o que mais precisavam neste momento era de ter a certeza de que o sistema de ensino e de avaliação funcionava com rigor, justiça e fiabilidade.

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