«Perante as muitas e sábias palavras que já foram despendidas a explicar e comentar a decisão do Tribunal Constitucional e as suas consequências, faltam, talvez, as mais básicas e evidentes: este Orçamento do Estado, tal como ele está feito, não visa agradar ninguém dentro do país, mas sim agradar alguém fora do país.
Esse alguém fora do país, ou seja, o BCE, a Comissão Europeia e o FMI (vulgo troika) têm pouca paciência para analisar profundamente os nossos problemas. É triste, eles deviam preocupar-se connosco, como nós nos devíamos preocupar com o médio-oriente, a situação miserável no Burundi ou o efeito dos tufões das Filipinas. Mas nem nós nos preocupamos assim tanto com os outros, nem os outros se preocupam assim tanto connosco.
Por isso, mal o Tribunal Constitucional exarou a sua sentença, a troika mandou-nos arranjar uma solução. Não algo que agrade a todos e mais ao senhor Reitor da Universidade de Lisboa, ótima e inteligente pessoa, carregada de razão, mas uma medida qualquer que demonstrasse, a tempo de uma decisão sobre a maturidade da nossa dívida, a firme resolução de cumprirmos o défice. E foi o que Vítor Gaspar fez. Puxou do bestunto e tomou uma medida. Não uma medida justa, porque não foi isso que lhe pediram, nem uma medida ponderada, porque não lhe deram tempo, mas uma medida qualquer: congelou tudo.
Se o dr. Gaspar e o Estado português não dependessem do dinheiro que a troika manda para pagar salários e pensões, poderia ter mandado os tipos passear. Se o dr. Gaspar tivesse moeda soberana, podia mandar desvaloriza-la e, de um dia para o outro, todos nós ganhávamos menos 20% em divisas internacionais (dólares, marcos, euros) sem que o TC se pronunciasse. Mas no dr. Gaspar não tem essa soberania.
Sempre que nos esquecemos disto, parecemos aqueles fidalgos arruinados que pensam ir passar férias para a quinta que já venderam.».
Henrique Monteiro - Expresso online