O secretário de Estado da Administração Pública, José Leite Martins, convocou na terça-feira, vários órgãos de comunicação social para um encontro informal no Ministério das Finanças. O assunto seria a convergência de pensões. Durante o encontro, foram os jornalistas, ali presentes, avisados de que os temas discutidos, impedidos de serem divulgados até à meia-noite de quarta-feira, poderiam ser noticiados, mas sem serem atribuídos a nenhum responsável, apenas a fonte do Ministério das Finanças. Sete órgãos de comunicação social (DN, JN, Dinheiro Vivo, Diário Económico, Público, Correio da Manhã e Agência Lusa) fizeram a manchete na quinta-feira.
Em Moçambique, Passos Coelho classificou as notícias de puras «especulações» e desautorizou o seu um secretário de Estado. Poiares Maduro, ministro-adjunto e do Desenvolvimento Regional e coordenador da comunicação governamental também não conhecia a existência do encontro.
Em Lisboa, Luís Marques Guedes, ministro da presidência, acusou os jornalistas de terem transformado uma conversa em off em notícia. Paulo Portas, vice-primeiro-ministro, disse no Parlamento que o briefing com os jornalistas foi um erro que não devia ter acontecido.
O governo não gostou do efeito provocado e resolveu atacar o mensageiro: os jornalistas. Até agora, José Leite Martins, ex-chefe de gabinete de Durão Barroso, antigo Inspetor-geral de Finanças, secretário de Estado da Administração Pública desautorizado por Passos Coelho e Marques Guedes e trucidado por Paulo Portas, mantêm-se em funções.
Como é evidente, o secretário de Estado Leite Martins não mentiu. Limitou-se a atirar «o barro à parede» a fim de preparar os portugueses para o que aí vem: um sistema de cortes permanentes das pensões ligado à demografia e ao crescimento económico, a fim de perceber qual o impacto político e social que tal medida provocaria. Tem sido sistematicamente assim (a título de exemplo, basta recorda o episódio da TSU ou do documento manipulador no caso dos swaps do ex-Secretário de Estado Joaquim Pais Jorge).
O governo havia afirmado reiteradamente que os cortes seriam temporários. O Tribunal Constitucional autorizou-os na expectativa de que fossem aplicados até ao final do programa de ajustamento a 17 de maio deste ano ou, no máximo, até 31 de dezembro de 2014. Mas como já se percebeu a redução da despesa pública tem sido conseguida até agora, essencialmente pelo corte nos salários da Função Pública e nas pensões. Com o desemprego elevado e com a economia a marcar passo, é certo que serão aplicados mais cortes e será esse o cenário para 2015. Deste governo, já nada nos espanta.