Cavaco Silva deu ontem posse ao XXI Governo Constitucional. O Presidente da República acabou por empossar o Governo que não queria, garantiu lealdade institucional ao novo primeiro-ministro, mas não cooperação, lembrando-lhe que mantem intactos todos os poderes que a Constituição lhe confere, exceto a possibilidade de dissolver a Assembleia da República, designadamente o poder de demitir o Governo. Na prática, o Presidente da República anunciou que estará vigilante e à mínima coisa poderá derrubar o governo de António Costa nas semanas que lhe restam de mandato.
António Costa já ia preparado para este tipo de oratória, tão própria de Cavaco e não estremeceu com o sermão. Sublinhou que o Governo não tem de responder ao Presidente e atribuiu à Assembleia da República maior soberania, porque é ela, afirmou, que tem «a exclusiva competência» para julgar o programa de governação.
Cavaco nunca abdicando da sua pose institucional que aliás sempre o caracterizou, deixou bem claras as mesmas advertências quanto, por exemplo, aos compromissos internacionais na União Europeia. Foi uma das questões que os acordos à esquerda levantaram e que na sua opinião «não foram totalmente dissipadas» e indicou que só deu posse a António Costa por não ter alternativa.
No fundo Cavaco foi igual a ele próprio. Fez um discurso a pensar exclusivamente na sua biografia, para memória futura, para dizer que “eu bem avisei”. Enfim, o habitual.