NARRATIVA DIÁRIA

A conta que Machete não fez

«Já não há muito a dizer sobre o que Rui Machete disse na Índia. Estabelecer em público uma fasquia numérica para o regresso aos mercados é um erro político básico e é, paradoxalmente, não perceber os mercados. A partir de agora a "pressão" para os 4,5% nos juros da dívida a 10 anos vai ser dupla: política e financeira. A primeira é perfeitamente gerível, a segunda é infelizmente incontrolável.


Os mercados vão ter em conta este número. E vão ter em conta pela pior das razoes: é que este número ainda é uma enormidade. Basicamente, se for para emitir divida a 4,5% de forma permanente, mais valia um segundo resgate, em que os juros são bem mais baixos. Nós tendemos a esquecer este facto, mas a verdade é que a humilhação de um resgate, de um programa draconiano e das subsequentes avaliações, esconde juros bastante razoáveis.


A conta que Machete não fez foi esta. Os 4,5% são valor mínimo que permitem a Portugal começar a emitir dívida. Mas terão que ser um ponto de partida para um programa com grande apoio do BCE (e de todos os mecanismos de que a Europa possa dispor), que obrigue os juros a descer de forma contínua e estável.


Nas situações de aperto, muitas vezes esquecemo-nos de olhar para os outros. A Irlanda - a que estávamos colados até julho - já tem os juros perto dos 3% e discute se pode arriscar ir aos mercados sem sequer recorrer a um programa cautelar. O discurso dos 4,5% colocou-nos definitivamente longe da Irlanda. Já lá estávamos, é certo, mas escusavam de o proclamar através do megafone ministerial».


Ricardo Costa  - Expresso - 12 Novembro

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