(Foto retirada da NET)
Há um século nascia, em Coimbra, Álvaro Barreirinhas Cunhal. A biografia de Cunhal confunde-se com a história política do país, no século passado. Concorde-se, ou não, com as suas ideias políticas, a verdade é que este carismático líder é uma referência incontornável do século XX.
Em 1930, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, com dezassete anos e aí iniciou a sua atividade política, filiando-se no Partido Comunista Português (PCP). Em 1934, no início do Estado Novo, é eleito representante dos estudantes no Senado Universitário e, dois anos depois, integra o Comité Central do PCP, seguindo para Espanha onde tomaria parte nos primeiros meses da guerra civil espanhola, ao lado das forças fiéis à «Frente Popular». No regresso a Portugal foi preso pela PIDE e colocado no Aljube. A última passagem pelos calabouços durou 11 anos, 8 dos quais passou-os em total isolamento, no Forte de Peniche. Em 1960, conseguiu evadir-se desta prisão, facto que teve repercussões na vida interna do PCP, uma vez que recuperou alguns quadros destacados para as suas fileiras. Em 1961 é eleito Secretário-geral do PCP.
Depois de alguns anos a viver na clandestinidade, regressou a Portugal após o «25 de Abril de 1974». Fez parte dos primeiros governos provisórios, como ministro sem Pasta. Foi eleito deputado à Assembleia Constituinte, em 1975 e reeleito para a Assembleia da República em todas as eleições legislativas até 1992. Nesse ano, deixou o cargo de Secretário-geral do PCP, sendo substituído por Carlos Carvalhas, e nomeado pelo Comité Central para Presidente do Conselho Nacional do Partido.
Homem coerente, fiel ao seu ideário político, era detentor de um discurso acutilante e mordaz e de uma inteligência desconcertante.
A sua intervenção política passou ainda por uma intensa atividade jornalística, com uma colaboração, ao longo da década de 1930, em diversos jornais e revistas proibidas pelo governo de Salazar, em quase todas as publicações clandestinas do PCP e ainda por uma intensa produção teórica e política de análise e reflexão sobre a realidade do país e do partido comunista.
A par da sua atividade política e ideológica assumiu, igualmente, uma faceta literária e artística não despicienda, com a elaboração das séries «desenhos da prisão», a tradução e ilustração de obras de William Shakespeare, a produção de obras históricas de análise social, como «As Lutas de Classes em Portugal nos Fins da Idade Média», a «Contribuição para o Estudo da Questão Agrária» e «Cinco notas sobre forma e conteúdo».
São ainda da sua autoria algumas obras de ficção como: «Até Amanhã, Camaradas» e «Cinco Dias, Cinco Noites», escritas sob o pseudónimo de Manuel Tiago, e posteriormente adaptadas à televisão e ao cinema.
Álvaro Cunhal foi uma referência intelectual que marcou todo o século passado e que, por isso, não deve ser esquecida. Morreu a 13 de Junho de 2005, em Lisboa, com 91 anos, fiel aos seus ideais políticos.